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terça-feira, 16 de março de 2010

Uma figura

Birineu foi uma figura ímpar. Tinha um jeitão militar de ser, mas era um chorão dos bons. Tudo emocionava o velho durão que parecia mais um pai do que um avô na minha vida e na de meu irmão. Era fácil derrubar o velho pelo coração.

Não naquele dia.

Nenhum avô amou tanto seus netos, nem ensinou tanto. Pelo menos pra mim. Eu tenho tantas histórias dele que fica difícil saber por qual começar, mas vou apostar na surra da laje.

Um belo dia eu aprontei alguma. Claro. Não me lembro qual, mas tenho certeza que foi uma das boas.
Birineu passou a mão no cinto e correu atrás de mim. Eu espertão e no arrojo dos poucos anos, pus sebo nos joelhos, que naquela época funcionavam, pra dar um baile no velho.

Corrí, subí a velha escada de madeira que dava pra laje em três pulos. De lá, joguei a parceira de fuga pra baixo, na esperança que meu perseguidor não subisse atrás de mim.
Acho que eu esperava que meu avô fosse fazer alguma coisa do tipo: Ah que neto esperto eu tenho, subiu na laje e anulou o único jeito possível de realmente fugir e por isso eu não vou bater nele.

Quase isso. Birineu era professor na arte do ensinamento infantil e de baixo gritou:

- Não quer apanhar não? Fazer besteira quis não foi? Pois bem, quando vc quiser apanhar me chama. E saiu. Tem base?

Eu naquela época, cheguei a uma conclusão lógica: Sou fodão. Fugí da surra e ainda tava num lugar massa pra brincar. Aquele dia a laje era minha.

Só esquecí que sem cobertura e no sol, a laje ficava quente , dava sede e com o tempo fome.

Birineu sentado esperrava, esperava...

- Meu avô, quero descer;
- Não pode, pra descer tem que apanhar;
- Então não quero;
- Então tá.

Esperava, espera...

- Meu avô quero descer;
- Não pode, pra descer tem que apanhar;
- Então tá.
- Como fala então?
- Não sei;
- Te ensino; (olha a redenção do professor)
- Meu avô o Sr. pode me bater porque eu fiz coisa errada?
- Meu avô o Sr. pode me bater porque eu fiz coisa errada?
- E que coisa errada vc fez?
Não me lembro a resposta, mas na época eu falei e completei com alguma coisa do tipo: - Então meu avô o Sr. pode me bater agora por favor?
- Posso, peraí que eu vou botar a escada.

birineu foi buscar a escada tentando esconder o riso e eu pensei: Ele ganhou e tá feliz, vai me liberar. Comecei a descer a escada e antes de chegar ao meio, senti a borracha da sandália samurai nas pernas. Tudo bem, pensei. Correr não era mais uma alternativa.

Tomei minhas sandaliadas e depois fui, cansado, beber água e comer . Meu professor tinha deixado mais uma lição.

Nunca fuja por um lugar sem saída, ou alguma coisa mais significativa talvez. Vai saber.

Só sei que nunca consegui esquecer isso, e que se o objetivo era esse, ele conseguiu. Quanto a mim, até hoje, de vez em quando, me pego em cima daquela laje, olhando pra baixo e vendo meu avohai rindo com uma sandália na mão.

Sem mais, subscrevo.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Há a infância.

Como vcs puderam ler no post abaixo, uma torrent de sentimentos da minha infância vieram a tona. Assim, resolví que vou fazer alguns posts com história de minha infância nesse quintal.

Vou tb apresentar a vcs minhas memórias de uma figura sensacional Birineu (pronuncia-se Birinêu) meu avô.

Birineu foi o avô que mais amou seus netos no mundo, mas tinha um jeitão todo particular de cuidar.

Hoje eu ainda posto um.

Sem mais (por enquanto), subscrevo.