domingo, 22 de maio de 2011

Babão

Eu chamava ele de Babão.

Desde quase sempre.

Uma vez eu fui em sua casa tomar aula de violão e de canto com o irmão dele, meu shidoshi e um dos poucos irmãos que eu escolhi ter na vida.

Quando entrei, ele estava embaixo do carro do pai, um chevete se eu não me engano. Ele me viu e começou a soltar uma baba pelo meio dos dentes separados. Eu, vendo um gordinho com cara de moleque, com os dentes separados cuspindo nele mesmo só pra sacanear alguém, não resisti: Adotei ele pra mim.

- O que é que vc quer babão?
E ele, quase automaticamente, começou a fazer mais baba e repetir babão, babão. Foi uma das coisas mais engraçadas que eu me lembro.

Daí a gente começou a se chamar de Babão.

Há uns 20 dias ele pegou uma bactéria e ficou em estado muito grave. Rezamos e ele venceu o pior quadro, foi melhorando e a gente tava super confiante no seu restabelecimento. Na quinta, porém, ele teve um aneurisma fulminante. Fato novo, que nada teve a ver com a tal bactéria.
Foi como se Deus dissesse.
-Pera,í vcs não tão entendendo não? É a hora dele respeitem isso!

Mas nós não respeitamos e intensificamos as orações até quando não deu mais. Eu fui pro hospital e cheguei a ir na UTI ver ele de perto. Precisava ter um choque pra ver se a ficha caía.

Não adiantou.
Pensei que a visão dele lá, parado, fosse suficiente. Mas bastou um toque na pele dele pra algumas imagens provarem ser mais fortes.

Lembrei de quando Cecília nasceu e ele foi visitar a gente com aquele sorriso do tamanho do mundo, os dentes falhados e a voz de criança.
- Babão! Gritou ele ainda do carro.

Lembrei de quando ele foi conhecer meu bar e de longe me chamou de Babão.

Lebrei que sempre foi assim. Sempre ele teve o mesmo sorriso e o mesmo dente falhado. Sempre teve a mesma voz e o mesmo coração de criança. Ele sempre foi Babão e sempre vai ser.

Não importa mais o que vai acontecer daqui pra frente, cara. Toda vez que eu estiver com seu filho vou falar do cara de fuder que vc foi. Vamos contar histórias e rir sem tristeza. Porque eu vou dizer pra ele que você não era triste.

A gente vai sentir sua falta pra caralho e eu nunca pensei que um dia diria isso pra vc, mas se chegou sua hora Babão...

Vá em paz.

5 comentários:

Antonio de Aruanda disse...

Haja baba, Pablito (choro e riso estampados na minha cara babada) Lindo, irmão.

deco31 disse...

Simplismente de fuder

VIVENDA BEIRA MAR disse...

Acho que não haverá melhor lembrança de Daniel que aquela com o seu inigualável sorriso estampado no rosto. Muito bonita a sua homenagem.

Paty Michele disse...

como disse Toni em certo momento: Daniel Vive!

E os chatos sobrevivem. (e só os chatos vão no blog dos amigos e não comentam!!!)

bj

inquietudedoolhar disse...

Emocionante ler vc! Em momentos que a dor me trava, palavras como as suas liberam toda a emoção represada. Obrigada! bjo