quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O incômodo

Hoje peguei um ônibus pra voltar pra casa. Estava numa cidade há cerca de 100 km de Salvador e, por incrível que pareça, o trajeto pode durar até 3 horas.

Carro vazio, cerca de 8 pessoas. Um silêncio gostoso e o soninho engatilhou-se automaticamente. Quando o tiro de Morfeu estava a um sopro de mim, eis que me surgiu um casal jóvem que sentando ao meu lado, não demorou pra ligar o celular com músicas evangélicas.

De pronto o sono foi embora e eu constituí a narrativa:

- Ei, vcs.
- É vcs.
- Me digam uma coisa, se eu tivesse ouvindo algum tipo de pagode, em que as mulheres são chamadas de cachorra, latíssem e ralassem a xana em algum lugar de baixo calão, nessa altura que vcs estão ouvindo seus cânticos, como vcs iam encarar?
- Pois é, sua música me incomoda tanto quanto. Dá pra desligar?

Fácil. Principalmente pra mim que já tenho um histórico desse tipo de reação, mas no momento não sei o que me deu. Simplesmente levantei, peguei minha mochila e fui pra última cadeira do ônibus. Lá, com o motor ligado, raramente ouvia alguma coisa, mas ouvia e isso acabou com o meu dia.

Ontem, batí na porta do meu vizinho pra comunicar-lhe que se ele voltasse a fazer festas barulhentas, ou andar nu pela cassa com a porta aberta, nós íamos ter um problema que eu sinceramente estava alí pra evitar. Ele ouviu calado e hoje de manhã se mudou, não por causa de mim acredito, mas se mudou levando a reflexão.

O fato é que eu brigo pelos meu direitos, ou pra defender aquilo que eu acho certo todos os dias em que sou confrontado com esse tipo de situação. Tanto, que eu nem me lembrava como é chato se omitir. Eu me omití. Por preguiça, por achar que eles não mereciam minha lição de moral, por sono, sei lá. O fato é que eu não consegui mais dormir, mesmo depois que eles desligaram, ou a bateria daquele diabo acabou.

Não dormí, mas pensei. Pensei em como seria minha análise se fosse um preto ouvindo reggae, ou um menino com o cabelo moicano ouvindo pagode. Sei o que pensaria.
Mas e nesse caso? Foi menos falta de educação?

Não acredito em rótulos, vcs sabem. Não acredito que existe esse, ou aquele tipo de atitude, ligado a esse, ou aquele grupo social. Só existe gente educada e gente mau educada.
Esse foi um típico exemplo de casal mau educado. Por acaso branquinhos, bem vestidos e crentes. Por acaso.

O fato é que não é bom ser conivente com esse tipo de situação. Me arrependí de não ter falado, me arrependí de ter assinado, junto com todos os outros passsageiros, uma carta em que dizia:
- Muito obrigado por vcs estarem aqui nesse ônibus, com essa música ungida (ou que quer que eles usem como adjetivo para ótima qualidade). Nós todos estamos adorando isso. Por Favor, juntos ou separados, em todas as viagens, ou lugares públicos que vcs estejam, não esqueçam de repetir isso. Não esqueçam esse celuarzinho abençoado.

Eu sou chato sei. Mas hoje fui chato comigo mesmo e com meus parcos direitos de cidadão. E quer saber? Não gostei.

Nem gostei, nem pretendo fazer de novo. Mal educados do mundo tremei. O Pablo de sempre está ainda mais chato a partir de hoje.

Sem mais, subscrevo.

5 comentários:

lilaemarcelo disse...

Por isso que continuo sendo a chata que reclama, que faz escandâlo se for preciso, porque um dia eles entram no seu jardim e pisam em alguimas flores, depois entram no jardim e arrancam todas as flores e quando você for dar conta, eles já destruíram sua casa. Sou sempre da máxima que "seu direito termina quando o do outro começa"!Abraços de chata para chato!

Ric Dexter disse...

Crentes nojentos, filhos da puta!

Juliana Rocha disse...

Foi o espírito de Jesus que aquelas músicas emanavam que fez vc ficar calado!
Não vejo nenhum outro motivo! kkkkkkk

Pablo Araújo disse...

Sem comentários Cabeça.

Anna Emíllia Meira Soares disse...

ODEIO qdo as pessoas são tão sem noção! Mas concordo c o comentário de Ju!!! Vc encontrou Jesus! kkkk